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Oficina de
Concertina
(Tocar de Ouvido 2006).
Tocadores:
Julinho da Concertina & Vitoriano Semedo
Os tocadores
convidados desta edição são Julinho da Concertina e Vitoriano Semedo, músicos Cabo-verdianos
residentes em Portugal, que trarão os sons da "Gaita" (como a concertina é
chamada em Cabo Verde), e do Ferro (idiofone de metal que acompanha a
música da concertina). Virão para ensinar as músicas Cabo-verdianas e dar
a conhecer a convivência de diferentes géneros musicais nessa parte do
mundo, que mistura influências europeias e africanas.
Júlio Lopes da Veiga, "Julinho da Concertina", é um músico bem conhecido na comunidade de
tocadores de concertina em Portugal, bem como da comunidade
Cabo-verdiana, tendo já actuado em palco com muitos nomes famosos desse
universo musical.
Pivot: Dulce Cruz
Licenciada no
Curso de Professores do Ensino Básico variante de Educação Musical pela
Escola Superior de Educação de Coimbra e com o Curso Geral de Formação
Musical pelo Conservatório de Música de Coimbra.
Fez parte de projectos como: Bach to Cage - Grupo pertencente à
Universidade de Aveiro (dança, voz e acordeão), d´Orfanfa (acordeão),
GEFAC - Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (voz e
concertina), Tuna Académica da Universidade de Coimbra (bandolim),
Antigos Tunos da Universidade de Coimbra (bandolim), Coro Misto da
Universidade de Coimbra, Orfeão Académico da Universidade de Coimbra e
Grupo Popularis (acordeão). Deu Cursos de Formação para Professores do
Ensino Básico, no âmbito das “Danças tradicionais do mundo”. Criou e
dirigiu a “Tuna de Ançã” e o grupo “Rodafole” (música étnica).
Frequentou o Curso de Jazz na Escola de Música RIFF em Aveiro, tendo
terminado os 4 anos de Harmonia e Formação Auditiva , 2 ano de Piano
(vertente jazz) e feito parte de alguns combos de Jazz.
Criou e é directora da Academia de Música de Ançã, onde também lecciona
as aulas de concertina, gaita-de-fole e Formação Musical. Faz parte do
grupo “MU” (música do Leste Europeu ) onde toca acordeão. Com este grupo
tem tocado em vários festivais em Portugal e Espanha: “Andanças” em São
Pedro do Sul, Festival Intercéltico de Sendim, “Sete sóis, sete Luas”,
“Danzas sin fronteras”, Festival de Plazencia, Festival de Música Celta
de Bilbau, Santiago de Compostela, entre outros. Dirige um Grupo de
Gaitas-de-fole e Percussão “Roncos e Curiscos”. Faz parte do Grupo
Típico de Ançã (concertina). Faz parte do corpo docente da d´Orfeu
Associação Cultural em Águeda, onde lecciona o Curso Mensal de
Gaita-de-fole. Integrou recentemente o 3º Curso de Formação de
Animadores Musicais na Casa da Música, no Porto.
A Concertina em Cabo Verde,
por Artur Fernandes
Nestas coisas da
tradição oral é muito difícil obter provas, mas sabe-se que o acordeão
terá chegado ao Brasil (Rio Grande do Sul) na década de 50 do sec.XIX,
levado por emigrantes alemães e italianos (marcas Hohner e Paolo Soprani)
e só terá chegado a Portugal na década de 90.
Quanto a Cabo Verde não há registos para além da oralidade (que cai
muito facilmente no domínio da lenda). Estas informações nunca referem
marinheiros portugueses, mas sim franceses (até há algumas histórias de
piratas)
Efectivamente na patente da invenção do Acordeão (Demian - Áustria) são
referidos os aspectos da portabilidade e do custo como vantajosos em
relação ao orgão. Mas na prática, como se tornou rapidamente num
instrumento muito popular, associado à ruralidade, fica umbilicalmente
ligado às danças tradicionais. O repertório do acordeão, logo desde
início, são géneros coreográficos.
Como a dança era considerada uma coisa proscrita pela Igreja Católica, o
instrumento era perseguido pelos padres (e muitas vezes apreendido), até
porque o tocador no adro da igreja lhes roubava "clientes" para a
Missa... (Este cenário foi comum em Portugal, França, Itália, País
Basco, Brasil, etc).
Em Cabo Verde mais motivos houve para esta má relação entre Igreja
Católica e Acordeão; a repressão de todas as manifestações de origem
africana que a Igreja Católica levou a cabo em Cabo Verde, deram origem
ao batuco tocado em toalhas, por exemplo e o ao uso do ferro no Funaná
(uma faca de cozinha a raspar numa barra de ferro duma cama), em vez de
um reco-reco.
Também por isso, se deu a prevalência da Morna e da Coladeira (urbanos e
de influências europeias) em relação ao Funaná, Batuco, Kola San Jon,
(rurais e de influências africanas). Esta situação só começaria a
inverter-se depois da independência. O grande responsável pela
"redescoberta" da música rural Cabo-verdiana é o precocemente falecido
Katchass (Carlos Martins) dos Bulimundo, que incorporaram ritmos e
harmonias do Funaná, Batuco e outros. Mais tarde os "Simentera"
continuam este percurso numa vertente acústica.
O Funaná é também um género coreográfico tipicamente africano de pares e
bastante sensual (como o tango, mas muito mais explícito), é cantado em
crioulo (geralmente o tocador da "gaita", acordeão diatónico). Os
padrões harmónicos são modais contrariamente ao que seriam as harmonias
tonais dos coros religiosos e os padrões rítmicos são sincopados, "uptime"
e repetidos obstinadamente. Estas características, afastam a
probabilidade do Funaná ter nascido a partir dos coros religiosos.
Como em outros países com músicas tradicionais de transmissão oral, o
Funaná esteve quase a desaparecer no final dos anos 70 do sec. XX. Como
foi referido atrás, foi muito importante o trabalho do Katchass nos
Bulimundo, para que o Funaná não morresse. Foi ele que "descobriu" o
Kodé di Dona, que mais tarde viria a gravar para a etiqueta Ocora da
Radio France.
É então que no decorrer dos anos 80 muitos tocadores voltam a fazer
bailes de Funaná, depois de terem parado.
Com a evolução dos meios técnicos, muitos tocadores gravam CD's: Bitori
nha Bibinha, Sema Lopi e Julinho da concertina (este residente em
Portugal) entre outros.
Até que aparecem os Ferro Gaita (finais da década de 90) a combinarem a
Gaita e o Ferro com o Baixo eléctrico e a Caixa de ritmos ("Drum machine")
– à semelhança do que os Bulimundo já tinham feito - e tornam-se
rapidamente um fenómeno de popularidade.
Um aspecto importante na cultura Cabo-verdiana é que todos parecem ser
músicos! Toda a gente sabe "dar um jeito" num instrumento qualquer. E
com o advento das gravações acessíveis de CD, ter um CD gravado é quase
como ter um Bilhete de Identidade. Assim, hoje proliferam dezenas de
CD's de Funaná, com Ferro, Gaita, Baixo eléctrico, Caixa de Ritmos. Até
o próprio Kodé di Dona, depois do "acústico" para a Ocora já gravou
(salvo erro, em 2001) Funaná Eléctrico. De referir que este movimento, a
par do Batuco, centra-se essencialmente na ilha de Santiago, em oposição
à Morna e Coladeira, mais centradas em S. Vicente. Este é mais um
aspecto da rivalidade entre Mindelo (S. Vicente) e Praia (Santiago).
Artur Fernandes

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