|
Instrumentos >
Canto

O Pivot,
Francisco D'Orey.
Sobre o Pivot
Francisco Manuel Cardoso d'Orey (Lisboa, 1931). Destacou-se nas décadas
de 60 e 70 no movimento coral da região de Lisboa, sobretudo através do
Coro da Universidade de Lisboa, do Coro da Juventude Musical Portuguesa
e do Grupo Vocal Arsis (do qual foi maestro fundador em 1978), entre
outros grupos corais que dirigiu; Coro da Misericórida de Lisboa (1964),
Coro da Tabaqueira (1968), Coro da Sociedade Filarmónica Incrível
Almadense (1970), como renovador das abordagens cénicas e do repertório,
em que acolheu música de todos os géneros e épocas - também a
tradicional, a partir de recolhas directas, nomeadamente na Beira Baixa
(Monsanto e Lousa), Alentejo (Aljustrel) e Beira Litoral (Travassô).
Nas décadas de 80 e 90 dirigiu ainda o Coral de Estudantes de Letras da
Universidade de Coimbra, a Camerata Vocal de Torres Vedras, o Coro da
Universidade de Évora, coro Eborae Musica, o Coro Infantil da Academia
de Música da Costa do Estoril e o Coro Sinfónico da Orquestra Nova
Filarmonia.
Foi pioneiro no estudo documental da música informal (em associações
populares, grupos musicais de jovens e escolas informais de música) e de
organização popular (coros e bandas), que registou parcialmente em c.
quarenta filmes que produziu e realizou no Continente e nos Açores:
série "Inventário musical" (RTP, 1970-1975). Foi co-produtor e
assistente musical no programa de Michel Giacometti "Povo que canta"
(1970-1972) e co-responsável, com Manuel Jorge Veloso, pelos Concertos
em diálogo na RTP (1971). Como fotógrafo, documentou a quase totalidade
das situações que filmou ou gravou e que publicou parcialmente nas
edições discográficas de Michel Giacometti. Reconhecido como animador e
divulgador musical, é citado por muitos músicos e musicólogos
portugueses como principal motivador da sua decisão de se dedicarem ao
estudo e prática musical profissional. Em 1979, Fernando Lopes-Graça,
considera F. Orey como "um dos mais bem dotados directores de coro
portugueses" e João de Freitas Branco refere "as suas excepcionais
capacidades como organizador de actividades musicais para jovens".
Sobre os Tocadores
Manuel Gaspar “Carola” (75 anos, natural de Stº Aleixo da Restauração,
cantor (ponto) autor de modas e poeta popular e João Perfeito Pestana
(57 anos, natural de Serpa, cantor).
Sobre o Canto (Michel
Giacometti, 1982)
A todas estas
perguntas, praticamente sem resposta, contrapõe-se a firme presença do
canto, cuja função sempre se ajusta às leis da sobrevivência na
sociedade tradicional e de economia rural, em que ritos do trabalho e de
religião visam assegurar ao homem a sua salvação no mundo terrestre.
Se quiséssemos agora considerar o que de mais significativo revela a
nossa canção popular, do ponto de vista da sua natureza, modalidades,
estruturas e funções, não hesitaríamos em apontar para quatro aspectos
díspares mas inequívocos e cuja apreciação conjunta permite detectar a
profunda integração do fenómeno musical na vida quotidiana das
populações rurais.
1. A expressão polifónica parece-nos ser a que mais pertinentemente
afirma o comportamento musical do nosso povo, atestando nas suas várias
formulações um longínquo enraizamento e uma vasta implantação
territorial. Ao abranger grande parte dos distritos de Aveiro, Beja,
Braga, Castelo Branco, Guarda, Viana do Castelo, além de concelhos ou
zonas limitadas dos distritos de Coimbra, Évora, Santarém e Vila Real, o
canto polifónico assumiu entre nós uma importância raramente igualada em
povos da Europa ocidental (notemos de passagem a sua quase inexistência
na vizinha Espanha).
Sumariamente, esta polifonia apresenta as formas antigas do gymel (canto
em terceiras) e do fabordão (canto em terceiras e sextas) e, deste,
formas mais elaboradas a três e quatro vozes (organum).
É de sublinhar o facto de ela ser entoada apenas por mulheres em todas
as regiões, salvo no Alentejo, onde é de uso quase exclusivo dos homens.
Assinalam-se, contudo, exemplos de excepções, que são certos cantos
rituais da Beira Baixa e Beira Litoral e certas modas alentejanas de
trabalho, que admitem, respectivamente, vozes masculinas e femininas.
Por fim, o que mais surpreende nesta polifonia é o seu ajustamento às
ocasiões do trabalho (sacha, sementeira, ceifa, varejo da azeitona,
arrancada, maçadela e espadelada do linho, etc.) a testemunhar a sua
solidariedade com as tarefas vitais do homem do campo.
2. A música que costuma designar-se genericamente por música religiosa
ocupa um espaço inegável na nossa tradição, pela variedade e riqueza das
suas expressões. Oferece-nos ela derradeiros vestígios de estilos e
modos arcaicos, ao acompanhar cerimónias que a liturgia católica fixara
e, sobretudo, ao inserir-se em práticas exteriores ao culto.
Assim, ao lado de músicas litúrgicas folclorizadas, outras há que
exerciam, ou ainda exercem, funções rituais libertas dos cânones ou
imposições eclesiásticas. Disso são exemplo os cantos de romeiro
baseados em incisivas fórmulas melódicas (Beira Baixa) ou estruturadas
polifonias (Minho, Beira Alta, Beira Baixa e Beira Litoral) e os cantos
de peditório das Janeiras e dos Reis (de Trás-os-Montes ao Algarve,
Madeira e Açores).
Essencialmente vocal, esta música, inclui, todavia, elementos
instrumentais cuja função mágico-encantatória se acha patente no
repertório, por exemplo, dos gaiteiros do Nordeste trasmontano e dos
tamborileiros da raia sul-alentejana.
Observe-se ainda que raramente ela se exprime de maneira devota ou
exageradamente mística. Pelo contrário, transparece aí uma curiosa
liberdade na convivência com santos protectores e outras divindades a
quem são dirigidas rogações a visar fins utilitários imediatos.
3. O terceiro aspecto reside na curiosa omnipresença do romanceiro,
assumindo funções diversificadas a reflectir a sua nítida implicação na
vida colectiva e doméstica das populações rurais.
A sua difusão é particularmente notável em áreas extremas do território,
ou sejam, o Nordeste trasmontano e o Algarve. Achamo-lo ligado naquela
região às fainas agrícolas, em especial à ceifa, sob a forma de canto
alternado (cuja melodia se desenvolve em geral no âmbito de um primitivo
pentacorde), enquanto no Sul parece perpetuar-se na velha tradição dos
cantos narrativos entoados aos serões. Neste caso, conserva o carácter
melódico dos velhos romances contados em «tom morto», que ainda podem
ouvir-se da boca de gente idosa em todas as zonas do País (inclusive nos
conselhos limítrofes da capital).
A sua interferência em ritos do trabalho (as já mencionadas cantigas das
segadas e, também, das malhas, da apanha das ervas, da fiação e
tecelagem do linho, etc.), em datas consagradas no calendário cristão
(Janeiras, Reis, Quaresma) ou, ainda, em horas devocionais do dia e da
noite, assegura-lhe um lugar de predilecção na memória (e no gosto)
popular. Tanto assim é que sobrevive nas narrações circunstanciais de
cegos andantes e poetas vagabundos a testemunharem as suas sempre
renovadas florações.
4. O último aspecto, a que nem sempre se deu a merecida atenção, diz
respeito às tonalidades em que se estruturam bastantes espécimes do
repertório tradicional. Assim, ao lado de um grupo maioritário de
canções tonais (baseadas no clássico maior-menor), Fernando Lopes-Graça
distingue três outros grupos formados por canções modais (onde
dominariam o mixolídio, o frígio e o eólio), canções cromáticas, que
assimila a modos, aplicando-lhes a qualificação de «exóticos», e
canções, ou mais propriamente melopeias, partindo de um «simples núcleo
tetracordal ou pentacordal» (romance das segadas e certos cantos de
romeiros, respectivamente, em Trás-os-Montes e na Beira Baixa).
As nossas breves observações não esgotam a inextricável complexidade do
fenómeno musical popular, de que se não podem ignorar aspectos
considerados de menor interesse musicológico, mas não de todo
desprezíveis, pois que em boa verdade não são menos elementos desse
fenómeno. Citamos, por exemplo, os chamamentos e diálogos entoados à
distância (Trás-os-Montes, Minho e Beira Alta), as cantilenas da pedra
(generalizadas), os ritmos dos cavadores no plantio do bacelo (Beira
Litoral, Estremadura e Ribatejo) e o leva-leva dos pescadores da
sardinha (Algarve), que remetem para velhas culturas pastoris ou nos
revelam os primórdios do canto.
Mas muitos outros problemas levantaria uma abordagem que se desejaria
menos superficial, induzindo-nos, entre outras, a observações quanto à
estrutura estrófica da nossa canção (predominância da quadra como
suporte da melodia e sua extrema mobilidade) ou interrogações acerca da
diminuta incidência da nossa música instrumental, do carácter um tanto
estereotipado da coreografia popular, ou, ainda, da permanência, aqui e
acolá, do canto liberto da metrificação regular, etc.

|
|