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João
Aguardela (foto:
jornal Expresso). |
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João
Aguardela
O músico que
criava entre a Pop e a Trad
morre aos 39 anos de idade. |
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João Aguardela faleceu no dia 18 de Janeiro, com um cancro, aos 39 anos
de idade. O músico que fundou os Sitiados e criou o Megafone (uma das
poucas criações portuguesas que juntava música electrónica e recolhas
etnográficas), partiu demasiado cedo, pondo termo a uma carreira
fecunda que prometia muito mais.
O jornal Público publica um artigo na sua versão em linha, da autoria de
Vítor Belanciano e Henrique Mourão, que resume um pouco o que foi o
trajecto inconformado de Aguardela - e que aqui citamos.
Obituário: João Aguardela,
o músico
pop
das raízes portuguesas
Jornal Público,
19 de Janeiro de 2009
Vítor Belanciano e Henrique Mourão
"Foi ontem, no hospital da Luz, em Lisboa. João Aguardela, músico do
grupo Sitiados nos anos 90 e, actualmente, membro do colectivo A Naifa,
faleceu aos 39 anos, de cancro. A cerimónia fúnebre é amanhã, pelas
16h00, no cemitério do Alto de São João, em Lisboa.
Aguardela fundou os Sitiados em l987, liderando, cantando e tocando
baixo. Foi com esse projecto que começou a dar nas vistas na década de
90. Desde cedo ficou explícito que a sua ideia era combinar música
tradicional portuguesa com linguagens como o rock ou a pop, um desígnio
de fusão que nunca abandonou, como se constataria mais tarde com A Naifa
e Megafone.
O músico Jorge Buco esteve com ele desde o início. “Trabalhei com ele 17
anos, era espontâneo, criativo, sempre insatisfeito. Com ele, ou era
para fazermos alguma coisa nova ou mais valia estarmos quietos. Tive a
felicidade de ajudá-lo a pôr de pé muitas dessas ideias.”
O amigo, e guitarrista dos Xutos & Pontapés, Zé Pedro, recorda-se dos
primeiros tempos dos Sitiados. “Tiveram uma entrada de rompante e foram
uma lufada de ar fresco”, diz, ao mesmo tempo que recorda alguém que “era
entregue à causa” da música e que, em palco, era um “frenesim,
aquilo a que se chama um 'animal de palco’.”
“Deixa um grande legado para a música portuguesa”, afirma Carlos
Moisés, cantor dos Quinta do Bill, da mesma geração que Aguardela, tendo
gravado com ele Senhora Maria do Olival, para a antologia Filhos da
Nação.
“Teve um percurso singular, experimentando música tradicional portuguesa
com outras roupagens. Tinha paixão pelo tradicional, mas vivência
urbana”, diz, lembrando que quando começou Aguardela tinha 17 anos. “Era
o mais novo de nós. Tinha um lado interventivo, inconformado.”
Em 1992, os Sitiados editaram o álbum homónimo de estreia com o tema
"Vida de marinheiro", que conheceu enorme sucesso, conseguindo que o
grupo vendesse cerca de 40 mil exemplares. O segundo álbum, "E Agora?",
é editado no ano seguinte e em 1994 a banda integra o projecto de
tributo a José Afonso, Filhos da Madrugada.
O "Triunfo dos Electrodomésticos", em 1995, Sitiados, em 1996, e
"Mata-me Depois", em 1999, foram os álbuns que se seguiram. Em 2000 dão
por encerrado o grupo.
Para além dos discos, distinguiam-se pelos concertos foliões e por
letras onde não se coibiam de comentar a realidade social portuguesa.
Uma das suas canções mais emblemáticas, "A cabana do pai Tomás", apesar
do tom de fábula, era sobre o escândalo Taveira.
Um ouvido no tecno, outro no folclore
Em 1996, numa entrevista ao PÚBLICO, Aguardela interrogava-se “porque
raio não há em Portugal música de dança de raiz popular?”, numa
alusão ao facto de haver quem não aceitasse que combinassem tipologias
tecnológicas, como o tecno ou rap, com folclore.
Esse foi sempre o seu propósito. O projecto solitário, Megafone, voltava
a denunciá-lo. O álbum homónimo, de 1997, era uma selecção de
electrónicas acopladas a recolhas etnográficas – feitas por José Alberto
Sardinha e Michel Giacometti – de cantos tradicionais. Era também uma
aposta pessoal de Aguardela, que acreditava – antes do assunto se ter
banalizado – que era possível lançar discos à revelia das editoras.
Os três álbuns seguintes de Megafone seguiram os mesmos pressupostos,
misto de cidade e campo, música popular e urbana, actualização de
recolhas de música tradicional portuguesa por via electrónica.
“Às vezes sinto que sou tradicional demais para o meio pop e que sou pop
demais para o meio tradicional”, dizia ao PÚBLICO em 1997, a propósito
de Megafone.
A sua outra obsessão era a palavra. Em 2002, na companhia de Luís
Varatojo, e uma série de vocalistas convidados, criou o projecto Linha
da Frente, na tentativa de musicar poetas. Entre essas vozes estava a de
Viviane (ex-Entre Aspas) que recorda que “tinha uma forma inovadora de
fazer música”, realçando que “deixa um vazio difícil de preencher porque
associava, como ninguém, a cultura portuguesa com coisas recentes”.
Como consequência dos Linha da Frente, nasce em 2004 A Naifa, ao lado
mais uma vez de Varatojo, com palavras de poetas portugueses para
guitarra portuguesa e voz de fado melancólica sobre ritmos electrónicos
lânguidos.
Com três álbuns – o último dos quais é "Uma Inocente Inclinação Para o
Mal" de 2008 – o projecto impôs-se, apostando na recriação do fado,
sacudindo mais uma vez as raízes e as memórias portuguesas.
Porquê essa obsessão? Talvez por isto: “se me perguntasse: 'gostava
que Portugal fosse diferente?’ Sim, gostava, não me contento com o que
é”, dizia ao PÚBLICO há dois anos."
Fonte: Jornal Público (www.publico.pt)

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